20 de novembro de 2011

SAWABONA - Sobre estar sozinho


SAWABONA - Sobre estar sozinho 
Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o inicio deste milênio. 
As relações afetivas também estão passando por profundas 
transformações e revolucionando o conceito de amor. 
O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos,  na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar. 
A idéia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século. 
O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração
 e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentirmos completos.
 Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, 
historicamente, tem atingido mais a mulher. 
Ela abandona suas características para se amalgamar  ao projeto masculino. 
A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: o outro tem de saber fazer o que eu não sei. 
Se sou mansa, ele deve ser agressivo, e assim por diante.Uma idéia prática de sobrevivência, e pouco romântica, por sinal. 
A palavra de ordem deste século é parceria. 
Estamos trocando o amor de necessidade pelo amor de desejo. 
Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é muito diferente. 
Com o avanço tecnológico que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de "ficar sozinha", estão aprendendo a conviver melhor consigo mesmas. 
Elas estão começando a perceber que se sentem fração, mas são inteiras. 
O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma  fração. 
Não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma. 
É apenas um companheiro de viagem. 
O homem é um animal que vai mudando o mundo, e depois tem de ir se reciclando para se adaptar ao mundo que fabricou. 
Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo. 
O egoísta não tem energia própria; ele se alimenta da energia que vem do outro, seja ela financeira ou moral. 
A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado. 
Visa a aproximação de dois inteiros, e não a união de duas metades. 
E ela só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar sua individualidade. 
Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho,  mais preparado estará para uma boa relação afetiva. 
A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso! 
Ao contrário, dá dignidade à pessoa. 
As boas relações afetivas são ótimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem. 
Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado. 
Cada cérebro é único. Nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém. 
Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto. 
Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal. 
Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito 
só podem ser encontradas dentro dele mesmo, e não a partir do outro. 
Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo 
quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um. 
O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. 
Nesse tipo de ligação há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado. 
Nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem de aprender a perdoar a si mesmo... 
PS: Caso tenha ficado curioso(a) em saber o significado de
 SAWABONA, é um cumprimento usado no sul da África e quer dizer:
 "EU TE RESPEITO, EU TE VALORIZO, VOCÊ É IMPORTANTE PRA MIM". 
Em resposta, as pessoas dizem SHIKOBA, que significa algo como: 
"ENTÃO EU EXISTO PRA VOCÊ". 
Flávio Gikovate - psiquiatra
http://www.flaviogikovate.com.br/


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